Leve-me ao seu Líder

11/05/2017

Mães, coragem!

Filed under: Sobre o título — by janainam @ 19:12

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Ana engravidou numa festa de carnaval, uma única noite com um desconhecido. Júlia ficou grávida de um homem casado, era o homem dos seus sonhos, só não estava disponível. Emília fez uma fertilização in vitro com sêmen de doador anônimo, já estava beirando os 40 e decidiu bancar uma produção independente. Débora engravidou do namorado, mas ele entrou em crise e o namoro acabou antes do nascimento do bebê. Marta era casada, mas reencontrou uma paixão antiga e, mesmo grávida, largou tudo para viver um novo amor. Amanda descobriu a traição do marido durante a gravidez e, de coração partido, deixou para pensar no assunto em outra ocasião. Bela deu à luz um lindo menino e em algumas semanas percebeu que ele era diferente. Um diagnóstico confiável só foi possível após uma peregrinação por consultórios e exames que levou anos.

Eu inventei os nomes, mas todas essas histórias são verdadeiras. Ainda assim (ainda que a vida prove diariamente ser muito mais ampla do que uma propaganda de margarina), maternidade e gravidez são temas em que os clichês mais pesam sobre as mulheres. Por isso, tantas sofrem em silêncio nesse tempo único da vida. A pressão por estar num relacionamento consolidado, com alguém comprometido, apaixonando e protetor; a obrigação de dar conta do trabalho, mesmo sem dormir ou com enjôo; a imposição de ficar em forma; o dever de gerar filhos perfeitos – só pra listar o básico. Mas essa não é uma história de roteiro único. A realidade é muito mais diversa do que o que cabe no pacote. Ainda bem, porque isso nos torna mães melhores, pessoas melhores, capazes de mais empatia e compaixão.

Gostaria que as mulheres, mesmo experenciando desafios impensados para esse período, não sofressem além da conta, oprimidas por essa avalanche de clichês e que pudessem lembrar de uma parte preciosa da história: a transformação que atravessamos; a sensação indescritível de nos descobrirmos parte da força criadora do universo; a percepção do feminino, num sentido transcendental. Arrisco dizer que isso independe do contexto em que nos encontramos.

Eu me lembro da primeira vez em que vi minha filha. Uma pequena pessoa inteira, que há um segundo era um pedaço do meu próprio corpo. Ela estava ali, outro ser, pronta. E eu que tinha feito. Como definiu lindamente Eliane Brum: eu me senti uma deusa! Eu era parte da força criadora do universo!

Contam que quando eu nasci, enquanto minha mãe era levada para a sala de parto, ouvia-se a música de abertura da novela Irmãos Coragem. Sempre me impressionou esse fundo musical, considerando que a maternidade para minha mãe não foi nada clichê. Era como um presságio (uma maldição ou uma benção?), que dizia: “Irmão! É preciso coragem!”. Por muito tempo me perguntei se essa mensagem era para ela ou para mim. Hoje penso que foi para as duas.

Neste dia das mães, compartilho essa mensagem como um desejo de ampliação. Para além dos clichês, para além do quadrado, para muito além do planejado: “Coragem! Que a vida é viagem, destino do amor…”

28/03/2017

Deserto, por favor, me deixe entrar!

Filed under: Posts — by janainam @ 09:48
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Estava muito frio. O chão tinha uma fina capa de água. O silêncio só não era maior do que a amplidão que o olhar tentava alcançar. O rádio do carro, distante, se perdia no ar, pequeno como a humanidade que ali invadia a paisagem esmagadoramente bela.

O céu clareava da maneira mais surpreendente que eu jamais testemunhara. Minha mão doía. As primeiras cores do amanhecer despontavam duplicadas no espelho formado pela água no chão branco de sal. O dia nascia tão lindo que me oprimia. Chorei, como quem pedisse: espera, ainda não, espera! Minha mão doía me lembrando que os momentos mais preciosos não se agarram.

Era o fim da viagem. Salar de Uyuni, Bolívia. Foram sete dias no deserto do Atacama, Chile, e, concluindo o roteiro, três dias de travessia pela Bolívia, até o Salar. Foram dias divertidos e profundos, cheios de ritmo e silêncio.

Eu esperei essa viagem com uma expectativa peculiar. Um deserto não é um lugar aonde se vá de qualquer jeito. Melhor ir distraído e torcer para que o Deserto lhe deixe entrar. Meu teste íntimo era esse: será que eu estaria tão anestesiada que não seria capaz de me surpreender? Será que poderia me emocionar diante da beleza? Saberia ouvir o silêncio, calar meus ruídos? Tinha um medo secreto de simplesmente voltar a mesma.

Os primeiros dias, no Atacama, passaram devagar. Um devagar bom. Acordávamos cedo, fazíamos um ou dois passeios por dia. Os almoços eram deliciosos. O grupo naturalmente encontrou uma sintonia fina. Alternávamos entre momentos eufóricos e meditativos, entre a aridez do lugar e as surpresas dos cenários. Cidade e vazio, mundano e sagrado. Cada noite que chegava me trazia uma sensação de alegria e gratidão, mas também uma certa angústia. Era como se eu ainda estivesse à porta. E eu esperava, ansiosa, que o Deserto me deixasse entrar.

Não sei dizer exatamente quando aconteceu. De repente, já não sabia da data e a hora só importava para programar o despertador. Quando dei por mim, esqueci daquele barulho que trazia dentro e me perdi nas paisagens, nos animais, nos sons, nos rostos, na próxima refeição, no banho gelado, nas máquinas fotográficas disparando freneticamente, no olhar dos guias que caçoavam sem pudores dos turistas deslumbrados.

E naquela última madrugada eu me peguei lembrando que a viagem estava no fim e logo seria hora de voltar. Machuquei a mão ao entrar no carro. Eu queria mesmo desaprender, ainda que na marra (talvez não seja de outra maneira), a parar de tentar agarrar tudo!

Deia foi quem melhor definiu: “Eu esperava chegar para ver o Deserto, mas parece que foi ele quem me viu!” Foi assim mesmo. Ele me olhou bem de frente e soltou uma tenebrosa gargalhada: “Você aprende tão devagar, bobinha!” E eu respondi, no meio daquele abraço descomunal: “Eu sei. Sou pequena e teimosa. Mas sou valente!”

 

31/10/2016

Timing

Filed under: Posts — by janainam @ 19:38

21/08/2016

Qualquer Coisa

Filed under: Geral — by janainam @ 01:25

labirintoAmo ler. Mas pulo partes do livro para ver o que se anuncia. Não me rendo à tensão crescente do suspense que o autor cria, envolvendo o leitor. Fico meio ofendida com isso, aliás. Acho desaforo. Quem é o autor pra me deixar em estado de nervos, refém do capricho dele de revelar ou não seus segredos, em seu tempo? Pois sou dona do meu tempo. Sem crise nenhuma, pulo parágrafos, páginas e descubro logo o mistério. Depois, boa leitora, volto e sigo direitinho e com dignidade – agora, sim, de igual para igual – o relato do escritor. Filmes também, sempre peço que me contem os filmes que eu não vi. Então vou assisti-los com mais conforto já sabendo de antemão o enredo.

Fiz isso no penúltimo livro que li e estava prestes a fazer novamente agora, quando me deparei com algumas frases que me fizeram refletir sobre minha capacidade de apreciar a beleza das coisas, e sobre a coragem de escolher fazer parte delas. Saí de foco. Entendi que o autor não está pensando em mim quando compõe sua melodia, mas me concede o privilégio de participar, se eu assim me dispor. A criação é um todo cuja sequência torna perfeita a experiência que alguém alcançou e conseguiu transferir para o livro. Embora plena em si, a obra nos convida a tomar parte na dança, desde que saibamos abrir espaço em nossas vidas para outra toada.

Uma potente sensação de qualquer coisa me submerge. Qualquer coisa.” E não é isso o que buscamos ao ler um livro, vislumbres de como lidar com o mistério da existência? É no mínimo paradoxal tentar entender de mistério atropelando o prenúncio do desconhecido. Se bem que mistério e controle sejam os polos opostos de uma mesma linha, tentamos aprender de frente pra trás, na ilusão de que se tratam de uma mesma coisa, em intensidades diferentes, assim como frio e calor são intensidades de temperatura. Mas pelo jeito não é assim que funciona. Sinto-me como um estudante que de repente compreende um pouco da lição que já sabia de cor. Não é o desfecho. É qualquer coisa. Qualquer coisa que me submerge, como diz Muriel Barbery em A Elegância do Ouriço. Aí reside o mistério. O desfecho é êxtase e morte. A vida está em qualquer coisa.

Minha filha, desde os sete anos, tem a mania de ler a última frase do livro, antes de começar a lê-lo. Sem saber nada da trama, ela gosta de ter em mente aquele fragmento e ir tentando adivinhar o sentido que a narrativa vai levar até chegar lá. No fundo é a mesma abordagem controle/mistério, mas acho que ela está um bocadinho mais pro lado de lá do escuro. Com um pouco mais de ritmo, ela dança. Mas não é fácil simplesmente submergir na potência do mistério da vida. A vida é qualquer coisa.

“ “Vou por meu vestido preto”, digo.

“O vestido dos enterros?”, pergunta Manuela, aterrorizada.

“Mas não tenho mais nada.”

“Então tem que comprar.”

“Mas é só um jantar.”

“Eu sei”, responde a aia que se esconde em Manuela. “Mas você não capricha para ir jantar na casa dos outros?”

E estou agora neste ponto da história. Ela aceitou o convite para o jantar. Mas será que vai revelar seu segredo, o segredo que ela guardou a vida inteira? O segredo que ele intuiu? Justamente esse mistério sobre ela foi o que o atraiu, o que o fez sentir vontade de conhecê-la. Sinto ganas (adoro essa expressão que tomamos emprestado do espanhol, com a intensidade que só esse idioma tem), ganas de pular as páginas e saber logo tudo o que vai acontecer no encontro, que mais parece um embate! Mas, pensando bem, se ele soubesse o que é que ela esconde, não tinha convite, não tinha a conversa na cozinha, não tinha vestido novo, não tinha jantar. Não tinha vida.

Não pulo nenhuma linha. Sigo firme, com ganas e tudo. Pode acontecer qualquer coisa.

17/07/2016

Novelo

Filed under: Sobre o título — by janainam @ 00:19
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Misael Rocha

Menos juízo moça.
Que a vida é pouca e melhor que fosse muita.
Não queiras mais falar de medo.
De coragem tampouco que dá no mesmo.
Fala de alegria.
Que a vida é pouca e melhor que fosse muita.
Alegria também de acenar à vida e ela não responder.
Mas quem disse que não responde?
Não atende teus pedidos, na tua medida. Traz outras propostas.
Aprende, deixa doer.
Passa, essa dorzinha de deixar a vida entrar.
É treino.
Tem tanta dor maior, dor que não se convida.
Fala de alegria.
Que a dor pode ser muita e melhor que fosse pouca.
Que a vida é o fio do tempo e a morte é o fim do novelo.
Desenrola, desenreda.
Com arte e amor.
Que amor nunca é pouco.
A noiva sem noivo lava o bumbum em pleno altar.
Brancura do vestido.
Vergonha do gesto.
Então entra correndo pelas portas imensas.
Pega a noiva pela mão.
Numa gargalhada vai levantando a saia, arrastando vestido.
O fio solto repuxa desenrolando a cauda.
De dentro pra fora sombra explode em luz. Doem os olhos.
Um fio de cada lado.
Que a vida se tece de luz e sombra e melhor que fosse longa.

29/06/2016

In Between

Filed under: Geral — by janainam @ 01:56

Faz parte do roteiro suportar o desenrolar lento e arrastado da realidade. Acho que por isso gostamos tanto de histórias, de livros e de filmes, para pontuar com perspectiva marcos que ajudem a suportar o ramerrame do dia a dia – roteiro sem imaginação – ou a aridez de certos dias – obra prima da dor.

Suportar. Esse verbo tem me ensinado, desde que Sísifo passou em minha vida e me explicou seu lance com a pedra. “Compartilhamos do mesmo destino”, finalizou ele numa saída teatral! Suporta! Eu penso cá comigo em momentos difíceis. Como no dia em que eu lia Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, solidária na dor do personagem que se despedia do filho, que iria morar na Europa, onde nada do pai o acompanharia. Bem nessa passagem, minha filha pegou o livro que ela estava lendo e em vez de se deitar comigo no sofá, como fazemos tantas vezes, disse que ia ler sozinha no quarto dela. Detalhe importante: eu tinha dado uma bronca há pouco, por alguma bobagem que já nem lembro. A distância era protesto e privacidade. Ela queria espaço para deixar passar a sua raiva. Pra mim, foi quase a partida pro estrangeiro! Por pouco não usei da minha autoridade sobre seus oito anos, determinando que ficasse ali ao meu lado! Mas me contive. Suporta! Pensei. Meus olhos se encheram d´água, respirei fundo e de algum lugar lá de dentro, uma voz tranquila me disse: confia!

Hoje uma amiga me contou sobre uma conversa difícil com alguém que ela ama. Falou sobre o que ela pensou sobre a discussão, que terminou de forma abrupta e inconclusiva, e disse coisas tão bonitas, que a outra pessoa não teve oportunidade de ouvir. Eu tive vontade de aconselhá-la a correr e dizer tudo aquilo que não foi dito, numa pressa de reparação! Mas em vez disso, disse algo como deixa, suporta, confia.

Em inglês há uma linda expressão chamada “In between”, que não possui tradução exata na nossa língua. Significa “entre”, mas mais denso, mais poético. Uma pausa de longo efeito, uma parada dramática, o tempo entre a semente e a flor. In Between: o momento em que respirei fundo e ouvi a mim mesma, entre a partida de minha filha para o mundo distante de seu quarto e o seu retorno, cheio de assunto, desopilada, com sorrisos e beijos.

11/05/2016

A cabana dos caquis caídos

Filed under: Geral — by janainam @ 01:06
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image“Diz a lenda que Kyorai, discípulo de Bashõ, tinha cerca de quarenta pés de caqui crescendo no jardim de sua cabana em Saga, subúrbio de Kyoto. Tinha acertado a venda dos frutos certo outono em que as árvores estavam carregadas, mas na véspera do dia em que deveria entregá-las uma forte tempestade caiu, à noite. Não sobrou um único caqui. Desse dia e diante Kyorai passou a chamar sua casa de Rakushisha, a Cabana dos Caquis Caídos.”

Rakushisha é o título do livro escrito pela brasileira Adriana Lisboa. Um relato delicado e comovente de personagens cujos destinos cruzam a saga de Bashõ, numa história sobre o que acontece quando a tempestade assola nossa plantação no quintal.

Rakushisha ficou imortalizada no Japão por Bashõ: poeta, peregrino, samurai. A vida não tem plano B. Bashõ, o poeta-bananeira, apelido tirado de um tipo de bananeira que nem frutos dá, foi todo plano A. A cabana que hoje no Japão é um templo em símbolo à sua memória traz essa marca. Não sobrou um único caqui.

Não adianta ter seguro. Seguro é plano B. Plano B é plano A revisitado, é ressaca, é birra. É querer tirar vantagem da perda, é enganar-se, é duelar com a vida, contornando o que ela oferece, num diálogo impossível sobre quem manda nessa casa.

A gente se ilude formulando o Plano B, buscando um meio de saída, quando tudo o que nos cabe é o meio de entrada. “Por que não tenho coragem de achar apenas um meio de entrada?”, pergunta Clarice Lispector no início de “A Paixão Segundo G. H.”.

Viver é ser peregrino, ser só Plano A. Como Bashõ. Andarilho. Viajante. Por conveniência? Por histórias mal resolvidas de amor? Por falta de perspectiva? Por curiosidade? Ou talvez porque assim, quando o sono fica difícil, o mestre e seus discípulos se levantam depois da meia-noite e então levam para fora os doces e os cálices de saquê que sobraram da tarde e conversam até o amanhecer[1].

Já pensei na vida como um vôo de asa delta. O medo do salto, a insegurança e a beleza do percurso e ao final imaginei até uma conclusão, mais ou menos assim: foi incrível, valeu cada segundo, mas graças a Deus acabou! Contudo, vejo quanto plano B há nessa ideia! Plano B é falta de fé. Rebobino o filme. Apago tudo o que vem depois do salto: a insegurança, a beleza do percurso e o pensamento final. Eles não me cabem. A mim só cabe correr e saltar, o que vem depois, quem sabe? Ninguém sabe e não posso querer saber só do que pode dar certo. É pouco.

Lá em Rakushisha, depois da meia noite, eu me junto a Bashõ e seus amigos e me sirvo de um cálice de saquê. Um brinde, Mestre! Que sejamos mais peregrinos. Que depois do salto possamos alegremente dizer que da obra ousada, é minha a parte feita: o por-fazer é só com Deus[2].

[1] Trechos de Rakushisha.

[2] Mensagem, Fernando Pessoa.

16/03/2016

Enquanto Sísifo

Filed under: Geral — by janainam @ 03:53
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Enquanto eu esperava na fila do caixa de uma livraria, vi O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Eu atravessava uma crise pessoal. Lembro do momento exato em que decidi comprar o livro. Eu procurava respostas.

Sísifo, um semi-Deus condenado, cujo castigo foi empurrar uma imensa rocha montanha acima, só para ver a pedra rolar montanha abaixo e ter de voltar a empurrá-la outra e outra vez, pela eternidade. Seu crime não me pareceu claro. Acho que não importa. Sua condição de condenado basta. Ele é toda a humanidade condenada à dor, à força do acaso que conduz os destinos sem qualquer lógica ou justiça.

Há momentos em que a esperança não chega. É quando nos percebemos condenados. Condenados sem processo, sem defesa, sem justiça. É a primeira nobre verdade ensinada por Buda: o sofrimento existe. E ponto. O sofrimento existe não porque o sofredor mereceu, mas simplesmente existe. Essa óbvia verdade se torna um absurdo à razão arrogante do ser humano, que pensa poder conduzir seu destino com segurança. Mas o imponderável acontece sem aviso e sua iminência imprevisível pode se tornar insuportável ao coração. Eis a condenação: a ameaça da penitência, sem crime nem pena, eternamente pesando sobre nossas cabeças.

É uma encruzilhada. Saber e não saber. Tem o homem a capacidade de manipular a natureza, orientar seu próprio desenvolvimento, moldar o mundo à sua volta. E não sabe daquele momento, daquele segundo em que, de repente, não mais que de repente, do riso faz-se o pranto silencioso e branco como a bruma…

Camus não dá respostas. Antes, lança o desafio: Viva na dualidade de saber e não saber. Suporte a tensão de ser humano e não ser Deus, convivam em seu peito todas as contradições de sua condição. Aceite que, para sempre você será estranho a si mesmo. Não fuja do seu limite, mantenha teso o arco de sua humanidade. Carregue sua pedra outra vez.

É que entre o saber e o não saber há tanto. Sim, há dor. E não, não há só dor. Entre o sim e o não, há a vida. Entre a partida e a chegada, há o tempo da viagem, que transcorre alheio à marcação dos relógios. Entre o sonho e a desilusão, há a amizade, a criação e arte. Entre o diagnóstico fatal e o último suspiro, há o medo, a revolta e o sentido. Entre uma crise e a próxima, respostas e a vida se abrindo em novas procuras.

Quando sou só a estabilidade da montanha, não alcanço o horizonte além. Quando sou só a tragédia da pedra, limito-me ao próprio peso da rocha. Mas, entre a montanha e a pedra, quando sou Sísifo, não sei. Entre a pergunta e a resposta há um mar de possibilidades.

16/12/2015

Fazendo as Pazes

Filed under: Geral — by janainam @ 01:52

Hoje tive um momento de inspiração no meio da tarde, no trabalho. Não pude me entregar ao devaneio. Fiquei firme. Tentei guardar na memória e no fundo do coração aquela ideia linda que me assaltou e que eu não pude perseguir. Cumpridos os compromissos, chega a hora, que eu marquei, para receber o insight que bateu antes sem aviso, inoportuno. Mas ele não veio. A inspiração furou. Foi-se, magoada, sentindo-se traída, de forma tão ingrata, por uma ocupação ordinária qualquer. O tempo da inspiração é dela, ela não se submete a encaixes em agendas ocupadas. O que me resta é me esforçar para convencê-la a voltar, pedir seu perdão. Correr atrás, dar duro, suar a camisa pra mostrar que eu mereço uma segunda chance.

Lembro que “criação é 1% de inspiração e 99% de esforço”. Então vambora! Esforço é comigo, acredito em esforço! Pesquiso no google e vejo que a frase célebre de Thomas Edson na verdade diz que se trata de 10% de inspiração e 90% de transpiração: proporção e sentido um pouco diferentes. Sigo, porém, no esforço, que o tempo da colheita vem no final!

Reza a lenda que Hércules, o semi-Deus da mitologia grega – ícone máximo do Esforço – realizou seus doze trabalhos em punição imposta pelo Oráculo de Delfos, após assassinar sua esposa e seus três filhos, num engodo criado por Hera. Esforço hercúleo veio em castigo. Nessa perspectiva, esforço tem a ver com a busca da redenção. É verdade que esforço antecede ao mérito, mas antes de tudo vem o crime. E o crime de Hércules foi se deixar iludir por Hera, deixar-se enlouquecer, perder a lucidez, esquecer o que é realmente importante.

Em comum ao crime de Hércules, meu pequeno crime também se refere a não estar presente, a perder a lucidez. Quando não há espaço para ouvir a voz interior que pede uma brecha no meio da correria do dia, há que se esforçar em punição.

A ideia é bela, mas não me rendo. Uma parte de mim se debate com esse insight que enfim alcanço aqui me esforçando pra lá da meia noite, quando talvez tudo fosse mais simples às três da tarde.

Quer dizer – contradiz meu eu esforçado – que eu deveria ter largado tudo, as obrigações, o trabalho, o dever, pra brincar de escrever no computador do trabalho no meio do expediente? É sério isso?

Ouço com carinho meu pequeno Hércules interno. Ele está cansado. Ele só entende de esforço. Ele não conhece o fluir. Não teve a oportunidade de nadar com a maré. Sempre remou contra, porque era o único caminho que, na sua pressa, ele via. Sua força tamanha, que nunca precisou poupar esforços procurando por uma travessia menos óbvia. Mas agora, já depois de uma da manhã, aproveito enquanto ele recupera o fôlego, para convidá-lo a se sentar um bocadinho e quem sabe a gente não pode se entender. Sou-lhe tão grata, mas quero paz.

Ele sempre me conduziu. Ele tem razão. Ele é racional. Argumento então. Falo de Amyr Klink, o primeiro homem a atravessar o Atlântico num barco a remo. Sua rota não foi em linha reta, mas uma parábola muito mais longa, que aproveitava as correntes profundas do Atlântico (um segredo que os grandes navegadores portugueses guardavam a sete chaves). Remou a favor.

E voltando a esta última tarde, é sério sim que pode ser possível dar uma pausa no trabalho quando se tratar de um assunto importante. E importante pode ser uma inspiração, não apenas uma emergência médica. Fluir com a maré não é boiar à deriva, é estar atento, alerta, mas também aberto e em plena forma! É coragem, fé e entrega. É força, com generosidade, e não esforço inclemente.

Era sobre isso que eu queria escrever, sobre fazer as pazes, eu comigo mesma. Eu inspiração-imprevisível-insegura-assustada e eu-Hércules-esforço-controle-capaz:

Vem, dá sua mão, preciso de você. Prometo que não vou atrapalhar, mas quero muito te ensinar a flutuar.

Tudo bem. É bom descansar um pouco.

 

29/10/2015

Tudo aquilo que não se pode ver

Filed under: Geral — by janainam @ 00:30

imagem extraída de http://minilua.com/grande-beleza-auroro-boreal/Aos cinco anos minha filha me perguntou, na lata: Papai Noel existe? Por três segundos hesitei, em conflito entre destruir suas ilusões ou mentir. Então não disse que sim nem que não e também não menti. Falei que há muitos mistérios nessa vida. Há coisas que não conhecemos e que sabemos de uma maneira que não podemos explicar. Há coincidências fantásticas, sonhos, encontros, intuições, descobertas, inspiração. Mas é preciso ter a disposição certa para perceber o que não se vê. E concluí com sinceridade: Eu acredito nos mistérios. Ela ouviu com atenção e declarou cúmplice: Eu também acredito!

Agora, aos oito anos, ela está fascinada com Harry Potter. Estamos no segundo livro, que ela carrega pra cima e pra baixo como um amuleto. Feitiços, bruxaria e criaturas mágicas são assunto comum por aqui. O que eu mais gosto nisso, além dela aprender o prazer da leitura, é vê-la em contato com um universo místico, do qual nos afastamos e que faz falta.

O invisível. Existe? E será essa a melhor maneira de abordar o impalpável, questionando sua existência, se suas formas são tão imprecisas? Não duvido das certezas científicas, mas lamento quando as pontes para uma outra dimensão são destruídas com argumentos racionais. Se a criança tem medo do escuro, explicar que escuro é apenas a ausência de luz é pouco. Se o apaixonado sente que o mundo inteiro se faz presente no ser amado, lembrar que a paixão decorre de um impulso genético, que visa à procriação, é nada. Diante de um dilema dilacerante, analisar friamente os prós e contras dos caminhos possíveis é vazio.

Quando minha filha levava a gata de pelúcia pra lhe ajudar na adaptação à escola, ela não carregava apenas um pedaço de espuma colorido. Ela portava um objeto de poder, que evocava nosso amor e desejo de proteção (meu e de todos os que cuidam) e seu medo tão igual ao de todos aqueles que se deparam com um grande desafio. Nessa gata ela se conectava à própria humanidade e à entrega necessária a todo viver. Nela ela se ouviu e se acolheu e com ela se transformou. Pura alquimia.

O que será o invisível? Quem sabe? Há quem diga que ele pode apenas ser representado, mas não explicado. Em algumas religiões antigas, Deus era “representado” por signos impronunciáveis. Falo aqui de Mistérios, dos quais perdemos a intimidade. Quando o mundo é demasiado concreto, ficamos desnorteados diante do grande Mistério que há no universo e que também nos habita. São os mitos, é ser tomado pela beleza sublime, a arte, a música, o amor, é de repente saber seu caminho com uma certeza que parece que nem vem de você. E quando tudo isso fica inacessível pela visão estreita da realidade, o mundo fica mais pobre, nós perdemos nossas conexões e nos tornamos surdos à nossa voz.

Saber perceber o que não se vê tem relação com desenvolver a voz interior, um radar capaz de apontar a nossa verdade. Algo me diz… Algumas vezes o radar vai falhar, mas quanto mais apurado, maior o sentido de vitalidade. Cabe falar de oração, de fé, de intuição e de busca. A secura da razão, embora a primeira vista pareça simplificar e tornar controláveis (menos dolorosos e mais seguros) os caminhos, não dá conta das nuances, da palpitação e do colorido de uma vida plena.

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