Leve-me ao seu Líder

21/07/2018

O amor é a mesa posta

Filed under: Geral — by janainam @ 09:40

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Diz Jung que “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” Não é o ódio que se contrapõe ao amor, mas o poder. Mais do que um sentimento, é uma forma de se relacionar com a vida.

O poder fascina, o amor expande. Quando fui a Jerusalém, fiquei fascinada. A cidade, a História, os livros que li. Ainda não voltei, ainda me pego fisgada por aquelas paisagens, o deserto, a cidade, o Templo, a Mesquita, o Muro. Senti uma conexão com minha humanidade ancestral, nossa brutalidade, nossa ignorância, nossas atrocidades e, ao mesmo tempo, o Sagrado, o sublime e o transcendente. Amor e poder, tudo junto?

Sim, tudo junto, acho. Podemos aprender a viver na vibração do amor ou do poder, transitamos entre elas. Aliás, educação é uma parte importante do autoconhecimento e cada vez mais a psicologia e a pedagogia se aproximam.

O poder, enquanto sombra do amor, é estar na vida com uma imensa régua para medir tudo. Tudo é relativo. O belo se torna feio diante de beleza maior, um adjetivo não pode ser compartilhado. Até as experiências pessoais se excluem, uma escolha significa perder todo o resto. O caminho é cheio de bifurcações. É uma forma de entender a vida. É verdadeira, mas não é a única, e quando se torna um modus operandi, cansa. O poder é o bolo que não vai dar pra todos. Fique atento porque maior sua fatia se menor a do amigo.

Amor é outra coisa. O amor é a mesa posta. É a cozinha na casa da Vó com uma fornalha gigante de pão de queijo e café quentinho coado na hora. Amor é abundância. Os caminhos se entrelaçam. Estar na vida relaxado, e não competindo, porque tomar um sorvete junto é tão mais gostoso. Se não há de tudo para todos, o que tenho de sobra pode te servir e, num pensamento Budista, diminuímos o sofrimento do mundo.

O Banquete, de Platão, é uma grande festa onde um grupo de pensadores discute sobre o amor. A fartura da cena, porém, não é traduzida por ele quando afirma que o amor é “relativo” a algo e nessa perspectiva, ama-se o que não se tem. Será que “o que não se tem”, na perspectiva do amor, não teria um significado mais profundo de que ninguém é dono de nada e tudo é de todos nesse grande banquete? Eu sei que a ideia não é essa, estou deturpando… Passa o sal pra cá, Platão. O que move o desejo é a falta, né? Entendi. Só que não é a única verdade. Até Lulu Santos  já falou da alegria de se querer quem se tem. Tá, tenho mania de adoçar as verdades amargas. Mas vem cá, Platão, prova desse mexidão aqui.

 

04/01/2018

Quintal

Filed under: Geral,Posts — by janainam @ 08:08

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Era um prato fundo de plástico.
Prato de criança. Tinha um desenho colorido.
Meu prato de mingau.
A colher ia pelas beiradas, revelando aos poucos a paisagem.
Era um ritual. Às vezes apareciam primeiro as copas das árvores, outras vezes o colorido despontava do centro para as bordas.
Não me lembro direito do desenho que ficou desbotado com o tempo.
Lembro da concentração daquela menina, da alegria em repetir o cerimonial das colheradas. Um rito diário de nutrição e entusiasmo, como se o prato pudesse surpreender e apresentar uma forma inédita.
Tenho saudade dela, do seu olhar curioso.
Também tenho saudade da velha avó que a abençoava, invisível. Como uma casa segura de quintal firme. Sinto falta desse chão.

Hoje nos meus caminhos calçados procuro pelo fio que vem lá detrás, passado pelas mulheres que me antecederam. Inclusive a menina. Ela trazia amarrada no dedo, num laço, a linha de seus antepassados, ligada a uma manta quente, acolhedora e lindamente bordada. Lá ela teceu o desenho do seu prato de mingau antes de crescer e guardou pra mim a ponta do fio, em algum cantinho sagrado que eu estou tentando encontrar. A primeira pista foi a saudade. Depois veio a memória da menina. Junto dela uma presença ancestral de velha sábia. Ela penteia os cabelos da criança. Sinto seus dedos separando os fios do meu cabelo. Ela cantarola um ritmo sem palavras. Sinto seu amor, seu pulso firme, sua idade de mãe Terra. Ela amarra minha trança com o fio mágico e beija minha cabeça. Diz que ainda vou aprender a música, quando eu começa a ouvir. Por ora, que eu fique atenta. Preciso apenas encontrar meu prato de mingau.

 

 

11/05/2017

Mães, coragem!

Filed under: Sobre o título — by janainam @ 19:12

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Ana engravidou numa festa de carnaval, uma única noite com um desconhecido. Júlia ficou grávida de um homem casado, era o homem dos seus sonhos, só não estava disponível. Emília fez uma fertilização in vitro com sêmen de doador anônimo, já estava beirando os 40 e decidiu bancar uma produção independente. Débora engravidou do namorado, mas ele entrou em crise e o namoro acabou antes do nascimento do bebê. Marta era casada, mas reencontrou uma paixão antiga e, mesmo grávida, largou tudo para viver um novo amor. Amanda descobriu a traição do marido durante a gravidez e, de coração partido, deixou para pensar no assunto em outra ocasião. Bela deu à luz um lindo menino e em algumas semanas percebeu que ele era diferente. Um diagnóstico confiável só foi possível após uma peregrinação por consultórios e exames que levou anos.

Eu inventei os nomes, mas todas essas histórias são verdadeiras. Ainda assim (ainda que a vida prove diariamente ser muito mais ampla do que uma propaganda de margarina), maternidade e gravidez são temas em que os clichês mais pesam sobre as mulheres. Por isso, tantas sofrem em silêncio nesse tempo único da vida. A pressão por estar num relacionamento consolidado, com alguém comprometido, apaixonando e protetor; a obrigação de dar conta do trabalho, mesmo sem dormir ou com enjôo; a imposição de ficar em forma; o dever de gerar filhos perfeitos – só pra listar o básico. Mas essa não é uma história de roteiro único. A realidade é muito mais diversa do que o que cabe no pacote. Ainda bem, porque isso nos torna mães melhores, pessoas melhores, capazes de mais empatia e compaixão.

Gostaria que as mulheres, mesmo experenciando desafios impensados para esse período, não sofressem além da conta, oprimidas por essa avalanche de clichês e que pudessem lembrar de uma parte preciosa da história: a transformação que atravessamos; a sensação indescritível de nos descobrirmos parte da força criadora do universo; a percepção do feminino, num sentido transcendental. Arrisco dizer que isso independe do contexto em que nos encontramos.

Eu me lembro da primeira vez em que vi minha filha. Uma pequena pessoa inteira, que há um segundo era um pedaço do meu próprio corpo. Ela estava ali, outro ser, pronta. E eu que tinha feito. Como definiu lindamente Eliane Brum: eu me senti uma deusa! Eu era parte da força criadora do universo!

Contam que quando eu nasci, enquanto minha mãe era levada para a sala de parto, ouvia-se a música de abertura da novela Irmãos Coragem. Sempre me impressionou esse fundo musical, considerando que a maternidade para minha mãe não foi nada clichê. Era como um presságio (uma maldição ou uma benção?), que dizia: “Irmão! É preciso coragem!”. Por muito tempo me perguntei se essa mensagem era para ela ou para mim. Hoje penso que foi para as duas.

Neste dia das mães, compartilho essa mensagem como um desejo de ampliação. Para além dos clichês, para além do quadrado, para muito além do planejado: “Coragem! Que a vida é viagem, destino do amor…”

28/03/2017

Deserto, por favor, me deixe entrar!

Filed under: Posts — by janainam @ 09:48
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Estava muito frio. O chão tinha uma fina capa de água. O silêncio só não era maior do que a amplidão que o olhar tentava alcançar. O rádio do carro, distante, se perdia no ar, pequeno como a humanidade que ali invadia a paisagem esmagadoramente bela.

O céu clareava da maneira mais surpreendente que eu jamais testemunhara. Minha mão doía. As primeiras cores do amanhecer despontavam duplicadas no espelho formado pela água no chão branco de sal. O dia nascia tão lindo que me oprimia. Chorei, como quem pedisse: espera, ainda não, espera! Minha mão doía me lembrando que os momentos mais preciosos não se agarram.

Era o fim da viagem. Salar de Uyuni, Bolívia. Foram sete dias no deserto do Atacama, Chile, e, concluindo o roteiro, três dias de travessia pela Bolívia, até o Salar. Foram dias divertidos e profundos, cheios de ritmo e silêncio.

Eu esperei essa viagem com uma expectativa peculiar. Um deserto não é um lugar aonde se vá de qualquer jeito. Melhor ir distraído e torcer para que o Deserto lhe deixe entrar. Meu teste íntimo era esse: será que eu estaria tão anestesiada que não seria capaz de me surpreender? Será que poderia me emocionar diante da beleza? Saberia ouvir o silêncio, calar meus ruídos? Tinha um medo secreto de simplesmente voltar a mesma.

Os primeiros dias, no Atacama, passaram devagar. Um devagar bom. Acordávamos cedo, fazíamos um ou dois passeios por dia. Os almoços eram deliciosos. O grupo naturalmente encontrou uma sintonia fina. Alternávamos entre momentos eufóricos e meditativos, entre a aridez do lugar e as surpresas dos cenários. Cidade e vazio, mundano e sagrado. Cada noite que chegava me trazia uma sensação de alegria e gratidão, mas também uma certa angústia. Era como se eu ainda estivesse à porta. E eu esperava, ansiosa, que o Deserto me deixasse entrar.

Não sei dizer exatamente quando aconteceu. De repente, já não sabia da data e a hora só importava para programar o despertador. Quando dei por mim, esqueci daquele barulho que trazia dentro e me perdi nas paisagens, nos animais, nos sons, nos rostos, na próxima refeição, no banho gelado, nas máquinas fotográficas disparando freneticamente, no olhar dos guias que caçoavam sem pudores dos turistas deslumbrados.

E naquela última madrugada eu me peguei lembrando que a viagem estava no fim e logo seria hora de voltar. Machuquei a mão ao entrar no carro. Eu queria mesmo desaprender, ainda que na marra (talvez não seja de outra maneira), a parar de tentar agarrar tudo!

Deia foi quem melhor definiu: “Eu esperava chegar para ver o Deserto, mas parece que foi ele quem me viu!” Foi assim mesmo. Ele me olhou bem de frente e soltou uma tenebrosa gargalhada: “Você aprende tão devagar, bobinha!” E eu respondi, no meio daquele abraço descomunal: “Eu sei. Sou pequena e teimosa. Mas sou valente!”

 

31/10/2016

Timing

Filed under: Posts — by janainam @ 19:38

21/08/2016

Qualquer Coisa

Filed under: Geral — by janainam @ 01:25

labirintoAmo ler. Mas pulo partes do livro para ver o que se anuncia. Não me rendo à tensão crescente do suspense que o autor cria, envolvendo o leitor. Fico meio ofendida com isso, aliás. Acho desaforo. Quem é o autor pra me deixar em estado de nervos, refém do capricho dele de revelar ou não seus segredos, em seu tempo? Pois sou dona do meu tempo. Sem crise nenhuma, pulo parágrafos, páginas e descubro logo o mistério. Depois, boa leitora, volto e sigo direitinho e com dignidade – agora, sim, de igual para igual – o relato do escritor. Filmes também, sempre peço que me contem os filmes que eu não vi. Então vou assisti-los com mais conforto já sabendo de antemão o enredo.

Fiz isso no penúltimo livro que li e estava prestes a fazer novamente agora, quando me deparei com algumas frases que me fizeram refletir sobre minha capacidade de apreciar a beleza das coisas, e sobre a coragem de escolher fazer parte delas. Saí de foco. Entendi que o autor não está pensando em mim quando compõe sua melodia, mas me concede o privilégio de participar, se eu assim me dispor. A criação é um todo cuja sequência torna perfeita a experiência que alguém alcançou e conseguiu transferir para o livro. Embora plena em si, a obra nos convida a tomar parte na dança, desde que saibamos abrir espaço em nossas vidas para outra toada.

Uma potente sensação de qualquer coisa me submerge. Qualquer coisa.” E não é isso o que buscamos ao ler um livro, vislumbres de como lidar com o mistério da existência? É no mínimo paradoxal tentar entender de mistério atropelando o prenúncio do desconhecido. Se bem que mistério e controle sejam os polos opostos de uma mesma linha, tentamos aprender de frente pra trás, na ilusão de que se tratam de uma mesma coisa, em intensidades diferentes, assim como frio e calor são intensidades de temperatura. Mas pelo jeito não é assim que funciona. Sinto-me como um estudante que de repente compreende um pouco da lição que já sabia de cor. Não é o desfecho. É qualquer coisa. Qualquer coisa que me submerge, como diz Muriel Barbery em A Elegância do Ouriço. Aí reside o mistério. O desfecho é êxtase e morte. A vida está em qualquer coisa.

Minha filha, desde os sete anos, tem a mania de ler a última frase do livro, antes de começar a lê-lo. Sem saber nada da trama, ela gosta de ter em mente aquele fragmento e ir tentando adivinhar o sentido que a narrativa vai levar até chegar lá. No fundo é a mesma abordagem controle/mistério, mas acho que ela está um bocadinho mais pro lado de lá do escuro. Com um pouco mais de ritmo, ela dança. Mas não é fácil simplesmente submergir na potência do mistério da vida. A vida é qualquer coisa.

“ “Vou por meu vestido preto”, digo.

“O vestido dos enterros?”, pergunta Manuela, aterrorizada.

“Mas não tenho mais nada.”

“Então tem que comprar.”

“Mas é só um jantar.”

“Eu sei”, responde a aia que se esconde em Manuela. “Mas você não capricha para ir jantar na casa dos outros?”

E estou agora neste ponto da história. Ela aceitou o convite para o jantar. Mas será que vai revelar seu segredo, o segredo que ela guardou a vida inteira? O segredo que ele intuiu? Justamente esse mistério sobre ela foi o que o atraiu, o que o fez sentir vontade de conhecê-la. Sinto ganas (adoro essa expressão que tomamos emprestado do espanhol, com a intensidade que só esse idioma tem), ganas de pular as páginas e saber logo tudo o que vai acontecer no encontro, que mais parece um embate! Mas, pensando bem, se ele soubesse o que é que ela esconde, não tinha convite, não tinha a conversa na cozinha, não tinha vestido novo, não tinha jantar. Não tinha vida.

Não pulo nenhuma linha. Sigo firme, com ganas e tudo. Pode acontecer qualquer coisa.

17/07/2016

Novelo

Filed under: Sobre o título — by janainam @ 00:19
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Misael Rocha

Menos juízo moça.
Que a vida é pouca e melhor que fosse muita.
Não queiras mais falar de medo.
De coragem tampouco que dá no mesmo.
Fala de alegria.
Que a vida é pouca e melhor que fosse muita.
Alegria também de acenar à vida e ela não responder.
Mas quem disse que não responde?
Não atende teus pedidos, na tua medida. Traz outras propostas.
Aprende, deixa doer.
Passa, essa dorzinha de deixar a vida entrar.
É treino.
Tem tanta dor maior, dor que não se convida.
Fala de alegria.
Que a dor pode ser muita e melhor que fosse pouca.
Que a vida é o fio do tempo e a morte é o fim do novelo.
Desenrola, desenreda.
Com arte e amor.
Que amor nunca é pouco.
A noiva sem noivo lava o bumbum em pleno altar.
Brancura do vestido.
Vergonha do gesto.
Então entra correndo pelas portas imensas.
Pega a noiva pela mão.
Numa gargalhada vai levantando a saia, arrastando vestido.
O fio solto repuxa desenrolando a cauda.
De dentro pra fora sombra explode em luz. Doem os olhos.
Um fio de cada lado.
Que a vida se tece de luz e sombra e melhor que fosse longa.

29/06/2016

In Between

Filed under: Geral — by janainam @ 01:56

Faz parte do roteiro suportar o desenrolar lento e arrastado da realidade. Acho que por isso gostamos tanto de histórias, de livros e de filmes, para pontuar com perspectiva marcos que ajudem a suportar o ramerrame do dia a dia – roteiro sem imaginação – ou a aridez de certos dias – obra prima da dor.

Suportar. Esse verbo tem me ensinado, desde que Sísifo passou em minha vida e me explicou seu lance com a pedra. “Compartilhamos do mesmo destino”, finalizou ele numa saída teatral! Suporta! Eu penso cá comigo em momentos difíceis. Como no dia em que eu lia Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, solidária na dor do personagem que se despedia do filho, que iria morar na Europa, onde nada do pai o acompanharia. Bem nessa passagem, minha filha pegou o livro que ela estava lendo e em vez de se deitar comigo no sofá, como fazemos tantas vezes, disse que ia ler sozinha no quarto dela. Detalhe importante: eu tinha dado uma bronca há pouco, por alguma bobagem que já nem lembro. A distância era protesto e privacidade. Ela queria espaço para deixar passar a sua raiva. Pra mim, foi quase a partida pro estrangeiro! Por pouco não usei da minha autoridade sobre seus oito anos, determinando que ficasse ali ao meu lado! Mas me contive. Suporta! Pensei. Meus olhos se encheram d´água, respirei fundo e de algum lugar lá de dentro, uma voz tranquila me disse: confia!

Hoje uma amiga me contou sobre uma conversa difícil com alguém que ela ama. Falou sobre o que ela pensou sobre a discussão, que terminou de forma abrupta e inconclusiva, e disse coisas tão bonitas, que a outra pessoa não teve oportunidade de ouvir. Eu tive vontade de aconselhá-la a correr e dizer tudo aquilo que não foi dito, numa pressa de reparação! Mas em vez disso, disse algo como deixa, suporta, confia.

Em inglês há uma linda expressão chamada “In between”, que não possui tradução exata na nossa língua. Significa “entre”, mas mais denso, mais poético. Uma pausa de longo efeito, uma parada dramática, o tempo entre a semente e a flor. In Between: o momento em que respirei fundo e ouvi a mim mesma, entre a partida de minha filha para o mundo distante de seu quarto e o seu retorno, cheio de assunto, desopilada, com sorrisos e beijos.

11/05/2016

A cabana dos caquis caídos

Filed under: Geral — by janainam @ 01:06
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image“Diz a lenda que Kyorai, discípulo de Bashõ, tinha cerca de quarenta pés de caqui crescendo no jardim de sua cabana em Saga, subúrbio de Kyoto. Tinha acertado a venda dos frutos certo outono em que as árvores estavam carregadas, mas na véspera do dia em que deveria entregá-las uma forte tempestade caiu, à noite. Não sobrou um único caqui. Desse dia e diante Kyorai passou a chamar sua casa de Rakushisha, a Cabana dos Caquis Caídos.”

Rakushisha é o título do livro escrito pela brasileira Adriana Lisboa. Um relato delicado e comovente de personagens cujos destinos cruzam a saga de Bashõ, numa história sobre o que acontece quando a tempestade assola nossa plantação no quintal.

Rakushisha ficou imortalizada no Japão por Bashõ: poeta, peregrino, samurai. A vida não tem plano B. Bashõ, o poeta-bananeira, apelido tirado de um tipo de bananeira que nem frutos dá, foi todo plano A. A cabana que hoje no Japão é um templo em símbolo à sua memória traz essa marca. Não sobrou um único caqui.

Não adianta ter seguro. Seguro é plano B. Plano B é plano A revisitado, é ressaca, é birra. É querer tirar vantagem da perda, é enganar-se, é duelar com a vida, contornando o que ela oferece, num diálogo impossível sobre quem manda nessa casa.

A gente se ilude formulando o Plano B, buscando um meio de saída, quando tudo o que nos cabe é o meio de entrada. “Por que não tenho coragem de achar apenas um meio de entrada?”, pergunta Clarice Lispector no início de “A Paixão Segundo G. H.”.

Viver é ser peregrino, ser só Plano A. Como Bashõ. Andarilho. Viajante. Por conveniência? Por histórias mal resolvidas de amor? Por falta de perspectiva? Por curiosidade? Ou talvez porque assim, quando o sono fica difícil, o mestre e seus discípulos se levantam depois da meia-noite e então levam para fora os doces e os cálices de saquê que sobraram da tarde e conversam até o amanhecer[1].

Já pensei na vida como um vôo de asa delta. O medo do salto, a insegurança e a beleza do percurso e ao final imaginei até uma conclusão, mais ou menos assim: foi incrível, valeu cada segundo, mas graças a Deus acabou! Contudo, vejo quanto plano B há nessa ideia! Plano B é falta de fé. Rebobino o filme. Apago tudo o que vem depois do salto: a insegurança, a beleza do percurso e o pensamento final. Eles não me cabem. A mim só cabe correr e saltar, o que vem depois, quem sabe? Ninguém sabe e não posso querer saber só do que pode dar certo. É pouco.

Lá em Rakushisha, depois da meia noite, eu me junto a Bashõ e seus amigos e me sirvo de um cálice de saquê. Um brinde, Mestre! Que sejamos mais peregrinos. Que depois do salto possamos alegremente dizer que da obra ousada, é minha a parte feita: o por-fazer é só com Deus[2].

[1] Trechos de Rakushisha.

[2] Mensagem, Fernando Pessoa.

16/03/2016

Enquanto Sísifo

Filed under: Geral — by janainam @ 03:53
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Enquanto eu esperava na fila do caixa de uma livraria, vi O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Eu atravessava uma crise pessoal. Lembro do momento exato em que decidi comprar o livro. Eu procurava respostas.

Sísifo, um semi-Deus condenado, cujo castigo foi empurrar uma imensa rocha montanha acima, só para ver a pedra rolar montanha abaixo e ter de voltar a empurrá-la outra e outra vez, pela eternidade. Seu crime não me pareceu claro. Acho que não importa. Sua condição de condenado basta. Ele é toda a humanidade condenada à dor, à força do acaso que conduz os destinos sem qualquer lógica ou justiça.

Há momentos em que a esperança não chega. É quando nos percebemos condenados. Condenados sem processo, sem defesa, sem justiça. É a primeira nobre verdade ensinada por Buda: o sofrimento existe. E ponto. O sofrimento existe não porque o sofredor mereceu, mas simplesmente existe. Essa óbvia verdade se torna um absurdo à razão arrogante do ser humano, que pensa poder conduzir seu destino com segurança. Mas o imponderável acontece sem aviso e sua iminência imprevisível pode se tornar insuportável ao coração. Eis a condenação: a ameaça da penitência, sem crime nem pena, eternamente pesando sobre nossas cabeças.

É uma encruzilhada. Saber e não saber. Tem o homem a capacidade de manipular a natureza, orientar seu próprio desenvolvimento, moldar o mundo à sua volta. E não sabe daquele momento, daquele segundo em que, de repente, não mais que de repente, do riso faz-se o pranto silencioso e branco como a bruma…

Camus não dá respostas. Antes, lança o desafio: Viva na dualidade de saber e não saber. Suporte a tensão de ser humano e não ser Deus, convivam em seu peito todas as contradições de sua condição. Aceite que, para sempre você será estranho a si mesmo. Não fuja do seu limite, mantenha teso o arco de sua humanidade. Carregue sua pedra outra vez.

É que entre o saber e o não saber há tanto. Sim, há dor. E não, não há só dor. Entre o sim e o não, há a vida. Entre a partida e a chegada, há o tempo da viagem, que transcorre alheio à marcação dos relógios. Entre o sonho e a desilusão, há a amizade, a criação e arte. Entre o diagnóstico fatal e o último suspiro, há o medo, a revolta e o sentido. Entre uma crise e a próxima, respostas e a vida se abrindo em novas procuras.

Quando sou só a estabilidade da montanha, não alcanço o horizonte além. Quando sou só a tragédia da pedra, limito-me ao próprio peso da rocha. Mas, entre a montanha e a pedra, quando sou Sísifo, não sei. Entre a pergunta e a resposta há um mar de possibilidades.

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